Raimundo Nonato*
Os golpes financeiros no Brasil não ficaram mais sofisticados por acaso. Eles evoluíram porque aprenderam a observar o comportamento do consumidor, copiar rotinas, explorar emoções e usar o próprio ecossistema digital como arma. Hoje, a fraude não depende, necessariamente, de invadir sistemas bancários; depende, sobretudo, de convencer a vítima a autorizar a operação.
O que vemos atualmente é a consolidação da engenharia social como principal ferramenta do crime financeiro. Pressão psicológica, senso de urgência, falsa autoridade e uso de dados verdadeiros passaram a compor abordagens extremamente bem ensaiadas. O golpe do falso advogado é um exemplo claro disso: criminosos acessam informações públicas de processos, constroem uma narrativa crível e induzem a vítima a realizar pagamentos, muitas vezes via Pix, acreditando estar resolvendo uma pendência legítima.
Além disso, as fraudes ganharam uma aparência cada vez mais técnica. Golpes de acesso remoto, conhecidos como “mão fantasma”, fazem com que o próprio consumidor instale ferramentas que permitem ao criminoso controlar seu celular ou computador. Mais recentemente, a utilização de clonagem de voz e deepfakes elevou o nível de realismo das abordagens, tornando ligações e mensagens praticamente indistinguíveis das comunicações legítimas.
Outro ponto importante é que o perfil do criminoso também mudou. Hoje, não falamos mais de ações isoladas, mas de operações em escala. Quadrilhas trabalham com roteiros, centrais falsas, equipes de “suporte”, testes de mensagens e análise de comportamento. É um modelo organizado, que se adapta rapidamente às respostas do mercado e às reações das vítimas.
Quando se fala em vítimas, é um erro imaginar que apenas idosos são afetados. A fraude escolhe a vulnerabilidade, e ela pode surgir em qualquer fase da vida. Ainda assim, pesquisas divulgadas em 2025 mostram maior incidência entre idosos, chegando a 44% em determinados recortes. Trabalhadores também figuram entre os principais alvos, sobretudo pela pressa do cotidiano, pelo medo de bloqueio de contas e pelo volume de transações digitais. Pessoas endividadas, por sua vez, ficam mais expostas a falsas promessas de crédito ou regularizações urgentes.
Os impactos desses golpes vão muito além do prejuízo financeiro imediato. O dinheiro perdido geralmente sai do salário, da reserva ou de benefícios, gerando um efeito dominó: uso de cheque especial, crédito rotativo, atraso de contas e cancelamento de planos essenciais, como tratamentos de saúde, reformas ou projetos familiares. Nos casos que envolvem benefícios e pessoas em situação de vulnerabilidade, o comprometimento pode atingir a própria subsistência.
Diante desse cenário, a informação e a responsabilização deixam de ser opcionais. É fundamental que o consumidor saiba como agir, como documentar o ocorrido e como buscar apoio. Da mesma forma, é indispensável enfrentar práticas ilegais em escala, inclusive por meio de ações coletivas, quando há repetição de condutas e falhas sistêmicas.
Na ABRADEB, atuamos justamente nesse ponto: orientação, organização de provas e medidas coletivas para proteger o consumidor e buscar reparação. Casos como os empréstimos e consignados realizados em nome de crianças e adolescentes mostram que o problema não é pontual, mas estrutural — e exige resposta institucional.
Golpes financeiros não são apenas crimes individuais; são um fenômeno social e econômico que exige prevenção, informação e ação coordenada. Ignorar essa realidade é permitir que a fraude continue se adaptando mais rápido do que a proteção ao consumidor.
*Raimundo Nonato é presidente da Associação Brasileira de Defesa dos Clientes e Consumidores de Operações Financeiras e Bancárias (Abradeb).


























