“Até que a morte afetiva nos separe”: divórcios de pessoas acima dos 50 anos crescem no Brasil

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O aumento da expectativa de vida e as mudanças na forma como os brasileiros encaram o casamento e a realização pessoal têm impulsionado o crescimento dos divórcios entre pessoas com mais de 60 anos. O fenômeno, conhecido como “divórcio grisalho”, reflete uma geração que chega à maturidade disposta a rever projetos de vida e, em muitos casos, encerrar relacionamentos de longa duração para buscar novos caminhos.

Dados analisados a partir das Estatísticas do Registro Civil do IBGE indicam que cerca de 30% dos divórcios registrados atualmente no país envolvem pessoas com mais de 50 anos, percentual superior ao observado há pouco mais de uma década.

Segundo o psicólogo Luís Fernando Milléo, muitos casais que permanecem juntos por décadas acabam priorizando objetivos comuns, como a criação dos filhos, a construção do patrimônio e a manutenção da estrutura familiar. Com o encerramento desse ciclo, surgem reflexões sobre desejos e projetos pessoais que ficaram em segundo plano.

“Depois de anos priorizando o projeto do casal, muitas pessoas passam a sentir necessidade de resgatar versões de si mesmas que ficaram adormecidas ao longo da relação”, afirma.

De acordo com o especialista, nem todas as separações nessa fase da vida decorrem de conflitos intensos. Em muitos casos, a decisão é motivada por um sentimento gradual de desconexão emocional e pela busca de maior autenticidade. “O crescimento do divórcio grisalho também é reflexo de uma geração disposta a buscar autenticidade emocional e revisitar desejos que foram deixados em segundo plano ao longo da vida adulta”, observa.

Entre os fatores apontados para o aumento das separações estão a maior longevidade, a independência financeira das mulheres, a saída dos filhos de casa e a redução do estigma social em relação ao divórcio.

A expectativa de vida do brasileiro alcançou 76,6 anos em 2024, o maior índice da série histórica do IBGE. Para Milléo, esse cenário altera a forma como as pessoas enxergam a própria trajetória. “Antes, aos 50 anos, as pessoas estavam vislumbrando aposentadoria. Hoje elas estão começando novas carreiras, viajando, empreendendo, correndo maratonas e vivendo novos projetos. Isso naturalmente impacta os relacionamentos”, explica.

Outro aspecto relevante é a mudança na percepção sobre felicidade e casamento. Segundo o psicólogo, a permanência em relacionamentos apenas por convenções sociais tem perdido espaço para a busca por satisfação pessoal e bem-estar emocional.

“Hoje o casamento é até que a morte afetiva nos separe, não mais a morte física. As pessoas vivem mais, têm novos projetos, novas possibilidades e já não enxergam a separação da mesma forma que enxergavam há algumas décadas”, afirma.

Aspectos patrimoniais também costumam ganhar relevância nas separações envolvendo pessoas mais velhas. Questões relacionadas à aposentadoria, imóveis, herança e reorganização financeira exigem atenção especial e, muitas vezes, acompanhamento jurídico.

Nesse contexto, cresce a procura por soluções consensuais e menos desgastantes. Segundo Laura Bubniak, cofundadora da Separa Online, muitos casais maduros buscam encerrar a relação de forma prática, preservando o patrimônio e os vínculos familiares.

“Muitos clientes chegam menos motivados por conflito e mais pela necessidade de reorganizar a vida de forma madura e prática. Existe uma busca maior por processos rápidos, consensuais e menos traumáticos”, destaca.