Justiça ouve PM envolvido em tráfico

O cabo da Polícia Militar César Theodorus Miguel Bom, de 49 anos, chegou a ser condecorado com a medalha do Mérito Policial Militar sete meses antes de ser preso pela Polícia Federal (PF), durante a operação “Águas Profundas”, que investigou e prendeu suspeitos de integrarem uma quadrilha internacional de tráfico de drogas, que estaria em atuação há pelo menos 30 anos.

Theodorus foi interrogado na última quarta-feira (23) pelo juiz Alderico Rocha Santos, na 5ª Vara Federal da 1ª Região da Justiça Federal, em Goiânia. Ele é acusado pelo procurador Marcelo Ribeiro de Oliveira, do Ministério Público Federal (MPF), pelos crimes de associação para a produção e tráfico e condutas afins (Lei 11.343 de 2006, artigo 35) e tráfico ilícito e uso indevido de drogas (Lei 6.368 de 1976, decreto 78.992 de 1976 e Lei 10.409 de 2002).

O conteúdo do interrogatório não foi divulgado. O gabinete do juiz explicou que o processo corre em sigilo. O procurador federal Marcelo Ribeiro de Oliveira disse, por meio da assessoria de imprensa do MPF, que “prefere não divulgar informações sobre o processo para não frustrar os trabalhos”.

Patrimônio

De acordo com o MPF, o policial fazia pesquisas de veículos “suspeitos” de investigar a quadrilha, além de habilitar chips e telefones para integrantes do tráfico internacional. Consta na denúncia que Theodorus recebia depósitos em sua conta bancária para facilitar a entrada de dinheiro do grupo criminoso e por serviços prestados aos traficantes.

Deflagrada em maio deste ano, a operação “Águas Profundas” prendeu 14 pessoas que estariam atuando com tráfico internacional de drogas há pelo menos 30 anos. Na época, a PF e a Receita Federal identificaram e fizeram o sequestro de bens e imóveis pertencentes a integrantes da quadrilha, entre eles um hotel, nove fazendas, nove apartamentos (quatro deles na praia), uma chácara, seis casas, 26 lotes e um box de garagem com valor estimado em aproximadamente R$ 100 milhões. Contas bancárias, veículos e notas em euro também foram apreendidos na operação.

Medalha

Na justificativa para a concessão da medalha a César Theodorus Miguel Bom, publicada no decreto 8.029 da Secretaria de Estado da Casa Civil, de 22 de outubro de 2013, e assinada pelo governador Marconi Perillo (PSDB), consta que o cabo da PM e outros 176 policiais militares, “no desempenho de suas funções, prestaram relevantes serviços, visando à preservação da ordem pública”.

Investigação durou dois anos e meio

A operação Águas Profundas prendeu quatro pessoas entre os dias 23 e 26 de maio. Mais de 250 policiais federais e servidores da Receita Federal agiram para cumprir dez mandados de prisão preventiva, 47 de busca e apreensão e 28 conduções coercitivas em 15 cidades: Goiânia, Aparecida de Goiânia, Goiatuba e Rio Verde – em Goiás; Guarujá, Ribeirão Preto, Bertioga, São Paulo, Campinas e Santos – em São Paulo; Belém e Icoaraci – no Pará; Belo Horizonte – em Minas Gerais; Londrina – no Paraná; São José do Xingu – no Mato Grosso; e Itajaí – em Santa Catarina.

Há mais de dois anos e meio, a organização criminosa era investigada pela Polícia Federal. O nome Águas Profundas foi dado à operação por um submarino que a quadrilha pretendia construir para transportar droga do Oceano Atlântico até a África e Europa. O MPF informou que o grupo atuava em “pelo menos” 30 países, o que inclui ao menos quatro continentes.

Segundo a Polícia Federal, a quadrilha tem um faturamento de R$ 5 milhões semanais. “Sempre coordenada por um líder, o qual coloca em prática os mesmos princípios da economia de mercado, com a utilização de diversos mecanismos contábeis, comerciais e cambiais, sempre visando o maior lucro possível e a redução constante de custos”, afirmou o delegado Bruno Gama em maio.
 

Projetos

A Polícia Federal informou na época da deflagração da operação que a quadrilha tem o projeto do submarino pronto e comprou uma mineradora na África para construir a embarcação. Mário Sérgio teria visitado locais onde submarinos usados no tráfico de drogas são feitos, informou o delegado.

A droga seria transportada da Venezuela para o Suriname no submarino, distribuída em navios menores até chegar alto-mar, onde seria levada novamente para o submarino, que seguiria até a África. No continente africano, a droga seguiria em pequenas embarcações até a Europa. O plano da quadrilha foi descoberto pela Polícia Federal durante as investigações.

Segundo a polícia, o grupo pretendia comprar um avião Boieng 737, com capacidade para transportar mais de 80 pessoas, e depois criar uma empresa aérea para levar a droga em voos comerciais. Para o delegado, a ação evitaria a suspeita de tráfico. Fonte: Jornal O Hoje.