O papa roubou um defunto e dai?

Parafraseando o refrão de um delicioso rock and roll brasileiro, eu me incluo entre os cristãos que consideram o Papa uma espécie de pop star (o “Papa é pop”). Afinal de contas, a função não é para qualquer mortal comum. A começar que o funil para ser indicado na fumaça branca que emerge da chaminé de cobre instalada na Capela Sistina é um dos mais estreitos da história moderna. Para usar o anel de São Pedro, e representar milhões de católicos, o sacerdote amarga o escrutínio de Deus e todo o mundo.

O papa Francisco é a primeira celebridade argentina que eu passei a admirar. Confesso que os rompantes do gosmento Diego Maradona e o vomito político de Cristina Kirchner me deixaram com uma espécie de urticária contra ídolos dos Hermanos. Mas, fique claro, sou fã do homem autorizado a usar a mitra, ou o pequeno chapéu branco conhecido como “soli Deo”, ou seja: somente para Deus.

Recentemente o santo homem confessou — assim do nada — ter roubado o crucifixo de um defunto. Mais precisamente de um padre que ele admirava o caráter e cobiçava o símbolo da imagem de cristo pregado no cruz. Quando li a noticia pensei que a revelação seria um desastre para o refinado Sumo Pontífice. Logo ele, que ia tão bem no cargo.

 Entretanto, ninguém deu a menor pelota para a surpreendente revelação. Até os mais azedos críticos entenderam a confissão como algo natural, humano, até singelo na ação do furto a quem não podia mais reclamar. Percebi, ainda mais claramente, que sou uma besta por enxergar dano onde não existe.

Minha obtusa ética ousa condenar o furto inclusive de um cadáver que não pode fazer boletim de ocorrência. Infindável cretinice visceralmente arraigada me faz imaginar que o espirito do morto podia ter o desejo de ir para a cova com o que lhe pertencia. Estou errado. Claro.

Por essas e outras é que indivíduos broncos como eu, não entendem como grupelhos que assaltam os cofres públicos, a exemplo dos mensaleiros condenados, podem se tornar ícones admirados, badalados, tornando-se heróis de uma geração. Será que revogaram o oitavo mandamento? O mais provável é que ele tenha ficado tão flexível que o “não roubarás”  dos tempos modernos permita o deslize se ele for tão fácil e simples como surripiar cadáver. Vou morrer sem entender, mas fico na minha.  Certo de que Deus está vendo e saberá julgar de forma adequada.

*Rosenwal Ferreira: Jornalista e Publicitário
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