Gratidão, a memória como forma de Justiça

Fabrício Cândido Gomes de Souza

Fabricio Cândido Gomes de Souza*

Certa vez ouvi de um advogado experiente uma frase que jamais saiu da minha memória: “Gratidão é dívida que não prescreve.”

À época, a frase me pareceu apenas uma bela metáfora jurídica. Com o passar dos anos, entretanto, compreendi que ela encerrava uma reflexão muito maior.

O Direito nos ensina que praticamente toda obrigação possui um limite temporal. Existem créditos que prescrevem. Pretensões que se extinguem. Obrigações que são pagas, compensadas, novadas ou perdoadas. O tempo, muitas vezes, encerra relações jurídicas.

Mas existe uma dívida que pertence a outra ordem. Ela não nasce da lei. Não depende de contrato. Não pode ser exigida em juízo. Nasce do reconhecimento. É a dívida da gratidão.

Ela surge quando alguém faz por nós aquilo que jamais teve obrigação de fazer. Quando um professor desperta uma vocação. Quando um amigo estende a mão. Quando um pai, uma mãe, uma esposa, fazem renúncias silenciosas. Quando um líder confia antes mesmo de existirem razões objetivas para confiar.

Quando alguém abre uma porta que, sozinho, talvez jamais conseguíssemos abrir. Esses gestos produzem efeitos que o tempo não consegue apagar. Talvez por isso a gratidão nunca tenha sido uma forma de pagamento.

Quem acredita que ser grato significa viver eternamente subordinado a alguém não compreendeu o verdadeiro significado da palavra. A gratidão não escraviza. Ela apenas impede que a memória se torne injusta.

Ninguém constrói uma história verdadeiramente sozinho. É evidente que existem mérito, disciplina, inteligência e esforço pessoal. Tudo isso é indispensável. Mas também é verdade que, ao longo da caminhada, todos recebemos oportunidades, ensinamentos, confiança, conselhos, incentivo e auxílio. O sucesso possui protagonistas. Mas quase nunca possui apenas um autor. É exatamente nesse ponto que nasce a ingratidão.

A ingratidão não consiste simplesmente em deixar de agradecer. Ela consiste em alterar os fatos. O ingrato reescreve a própria biografia. Apaga nomes.

Silencia contribuições. Esquece mãos estendidas. Elimina da narrativa todos aqueles que participaram da construção daquilo que hoje ele chama de conquista exclusivamente sua. É uma espécie de falsificação da memória. E talvez seja justamente por isso que a ingratidão costuma provocar sofrimento.

Quem ajuda normalmente não espera recompensa. Espera apenas que a verdade sobreviva. O que fere não é a ausência de retorno. É a negação da realidade. É perceber que alguém resolveu contar uma história diferente daquela que realmente aconteceu.

Sob essa perspectiva, a gratidão deixa de ser apenas uma virtude. Ela passa a ser uma forma de Justiça. Justiça porque reconhece a contribuição de quem participou da nossa construção. Justiça porque restitui a cada pessoa o lugar que efetivamente ocupou em nossa história. Justiça porque impede que o sucesso seja apropriado exclusivamente por quem jamais caminhou sozinho.

Anda existe uma consequência menos evidente. O maior beneficiado pela gratidão não é quem a recebe. É quem a pratica. A pessoa grata vive conciliada com sua própria trajetória. Ela consegue olhar para trás sem precisar apagar capítulos. Sem eliminar personagens. Sem diminuir aqueles que um dia foram importantes.

O ingrato, ao contrário, vive prisioneiro da própria narrativa. Precisa sustentar continuamente a ficção da autossuficiência. Precisa convencer os outros, e a si mesmo, de que sempre bastou. É uma construção frágil porque a mentira exige manutenção constante. Toda verdade, ao contrário, permanece de pé sozinha.

Hoje percebo que aquela frase dita pelo meu colega dizia muito mais do que aparentava. Ela não falava apenas sobre gratidão. Falava sobre memória, sobre verdade, sobre Justiça.

Escrevo estas reflexões não para apontar a ingratidão alheia. Escrevo-as para lembrar a mim mesmo de uma obrigação que considero permanente.

Olho para minha própria caminhada e sei que tudo aquilo que construí nasceu do meu trabalho, da minha dedicação e das minhas escolhas. Mas seria profundamente injusto afirmar que nasceu apenas delas. Minha história também foi escrita pela minha família que fizeram renúncias silenciosas. Por professores que ensinaram mais do que disciplinas. Por amigos que permaneceram. Por colegas que aconselharam. Por clientes que confiaram. Por
líderes que abriram portas. Por adversários que me obrigaram a crescer. Por colaboradores que prestaram mais que serviço. Por pessoas que talvez jamais saibam a dimensão da influência que exerceram sobre minha vida. A todas elas, minha mais sincera gratidão. Gratidão também àquelas que ainda encontrarei pelo caminho. Porque sei que a história que ainda escreverei continuará sendo construída por outras mãos, além das minhas.

Se a Justiça consiste em dar a cada um o que lhe é devido, talvez a gratidão seja a forma mais nobre de praticá-la. E, por isso, continuo acreditando que algumas dívidas simplesmente não pertencem ao tempo. Pertencem ao caráter. A gratidão é uma delas.

*Fabricio Cândido Gomes de Souza é advogado, CEO do escritório Celso Cândido de Souza Advogados.