Marilene de Araújo Martins*
A música Esse Cara, composta na década de 1970 por Caetano Veloso, interpretada por Maria Bethânia, ainda nos provoca, décadas depois:
“Ah! Que esse cara tem me consumido
A mim e a tudo que eu quis (…)
Ele é quem quer
Ele é o homem
E eu sou apenas uma mulher.”
Era apenas uma mulher e um homem, em um elevador, que em poucos segundos se tornou cenário de 61 socos motivados por ciúmes. É o que diz o boletim de ocorrência. Já o boletim médico informa que a vítima está “estável”. Mas o que é “estável” depois de tamanha violência? Essa mulher é uma entre milhares atravessadas por murros, facadas, palavras, silêncios e ausências que ferem e matam diariamente.
Mesmo com a redução dos índices gerais de violência no Brasil, o feminicídio voltou a crescer em 2024. Foram 1.492 mulheres assassinadas por sua condição de gênero, o maior número já registrado, segundo o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, recém-divulgado. A maioria era negra, jovem e morta dentro de casa, pelo companheiro ou ex-companheiro. Por trás de cada número, há um trauma, e não só para a vítima, mas para filhos, famílias e comunidades inteiras.
O Agosto Lilás nos convida a olhar com mais profundidade para essa ferida social. Combater a violência contra a mulher exige mais do que leis: exige transformação cultural e psíquica. A forma como a masculinidade é construída socialmente, baseada no controle, na repressão das emoções e na negação da vulnerabilidade, está diretamente ligada à perpetuação da violência. A psicologia tem papel essencial nesse processo: ajuda a identificar, compreender e romper os ciclos abusivos.
A violência psicológica é um dos tipos mais cruéis por ser invisível. Sem marcas aparentes, ela se infiltra aos poucos, desestabiliza, corrói a autoestima e destrói a identidade. Em 2024, tramitavam quase 12 mil processos desse tipo na Justiça. O agressor se impõe por meio de controle, ameaças, manipulação, isolamento e ridicularização. As vítimas enfrentam quadros de ansiedade, depressão, hipervigilância, perda de memória e adoecimento emocional profundo. Muitas sequer percebem que estão em uma relação abusiva e quando percebem, já estão devastadas.
A Lei Maria da Penha inovou ao reconhecer a violência psicológica como crime, e a Lei 14.188/2021 tipificou esse abuso com pena de reclusão. Mas o maior desafio ainda é o reconhecimento: tanto por parte da vítima, quanto da sociedade e do sistema de Justiça. Ferramentas como o Formulário Nacional de Avaliação de Risco ajudam, mas é preciso mais: mais acolhimento, mais escuta, mais educação emocional.
Muitas mulheres, ao longo do tempo, tiveram que reconstruir sua identidade após anos de silenciamento, controle emocional e abandono afetivo. Mulheres que se anularam para manter relacionamentos, que acreditaram que ceder era amar, que foram levadas a acreditar que não eram suficientes. E que, com tempo, apoio e ajuda profissional, puderam reconquistar sua autonomia.
A mudança começa na escuta, no autoconhecimento, na rede de apoio. Precisamos ensinar meninas que amor não é dor, que ciúme não é cuidado, que controle não é proteção. E aos meninos, que vulnerabilidade não é fraqueza, que respeito é o verdadeiro afeto. Como psicóloga, defendo que enfrentar a violência contra a mulher é também enfrentar a forma como nos relacionamos, como educamos, como enxergamos o outro.
A violência contra a mulher não é uma questão privada, é uma ferida coletiva. Que a cada Agosto Lilás, a gente não só lembre, mas transforme. Porque nenhuma de nós deveria ser apenas uma mulher.
*Marilene de Araújo Martins é psicóloga e diretora do Instituto Habiens.


























