Fusões entre escritórios avançam como estratégia de negócio

Nycolle Soares*

O anúncio da integração do Opice Blum Advogados ao Cescon Barrieu, em agosto, sinaliza uma tendência de mudança no mercado jurídico brasileiro. Fusões, incorporações e outras formas de associação entre escritórios deixaram de ocorrer apenas pela afinidade entre sócios e passaram a ocupar um lugar estratégico nos planos de expansão das bancas.

O avanço da inteligência artificial, o aumento da complexidade regulatória e a demanda das empresas por uma atuação integrada ajudam a explicar esse movimento. Os clientes enfrentam questões que atravessam simultaneamente diferentes áreas do Direito e esperam encontrar respostas coordenadas. Para os escritórios, isso exige especialização, capacidade de investimento e estruturas cada vez mais completas.

A combinação entre Opice Blum e Cescon Barrieu ilustra esse cenário. Reconhecido pela atuação em Direito Digital, proteção de dados, tecnologia e inovação, o Opice Blum passa a integrar uma banca consolidada no Direito Empresarial. A união aproxima conhecimentos relacionados à inteligência artificial, cibersegurança e uso de dados de áreas como governança, mercado de capitais, operações societárias e resolução de conflitos.

Esse tipo de operação pode ampliar a presença geográfica, incorporar especialidades e facilitar o atendimento a clientes com demandas complexas. Também permite distribuir custos crescentes relacionados à tecnologia, à segurança da informação e à atração de profissionais qualificados. Assim, o que antes era tratado como a entrada de um novo grupo de sócios começa a ser compreendido como um movimento de mercado e de ampliação de plataformas jurídicas.

O Brasil já registrou outras iniciativas semelhantes. Em 2023, o Marcelo Tostes Advogados anunciou a fusão com o Pena Carvalho Advogados, com a unificação das equipes e práticas. No ano seguinte, Cescon Barrieu e TozziniFreire avaliaram uma possível combinação, mas encerraram as conversas sem concretizar a operação. Mesmo quando uma negociação não avança, sua existência demonstra que o tema passou a fazer parte das decisões estratégicas das grandes bancas.

No exterior, esse processo está mais consolidado. Um dos exemplos mais conhecidos é o Dentons, criado em 2013 a partir da combinação entre SNR Denton, Salans e Fraser Milner Casgrain. Desde então, o escritório realizou novas integrações em diferentes países e construiu uma estrutura de alcance global.

Outro caso recente foi a união da Herbert Smith Freehills com a norte-americana Kramer Levin, concluída em junho de 2025. A operação criou a Herbert Smith Freehills Kramer, com aproximadamente 2.700 advogados, 630 sócios e 26 escritórios. Com receita superior a US$ 2 bilhões, a nova organização passou a integrar o grupo das maiores bancas do mundo.

Os números confirmam a tendência. Nos Estados Unidos, 59 fusões entre escritórios foram concluídas em 2025, crescimento de 18% em comparação com as 50 registradas no ano anterior, segundo dados da Fairfax Associates divulgados pela Reuters. O levantamento apontou ainda uma participação maior de grandes bancas nessas operações.

No entanto, combinar escritórios envolve desafios que vão além da soma de equipes, clientes e áreas de atuação. É preciso avaliar conflitos de interesse, compatibilidade entre carteiras, modelos de remuneração e governança, além das diferenças culturais entre os profissionais. Sem essa análise, uma operação pensada para gerar escala pode resultar em perda de talentos, dificuldades de integração e problemas no relacionamento com os clientes.

A consolidação desse movimento no Brasil dependerá, portanto, da capacidade dos escritórios de conciliar expansão e planejamento. As fusões podem fortalecer a atuação das bancas diante de um mercado mais tecnológico, regulado e internacionalizado, mas seus resultados estarão diretamente ligados à qualidade da integração. Crescer, nesse contexto, significa também construir uma organização capaz de funcionar de maneira efetivamente integrada.

*Nycolle Soares é advogada com atuação em Direito Societário, Governança Corporativa e Compliance. Ex-CEO de um dos maiores escritórios de advocacia do Centro-Oeste, possui experiência em liderança executiva e gestão estratégica de bancas. É pós-graduada em Direito Societário e Direito Digital pelo Insper, em Compliance em Saúde pelo Hospital Israelita Albert Einstein e em Acreditação em Saúde pelo IPOG.