Câncer de mama e a violência doméstica: um elo invisível.

Layla Oliveira Gomes*

À primeira vista, o câncer de mama e a violência doméstica parecem fenômenos distantes. Um pertence à esfera da medicina; o outro, à do crime e da desigualdade social. Mas há entre eles um elo invisível — um ponto de encontro silencioso entre o sofrimento emocional e o adoecimento físico das mulheres.

Levantamento divulgado pela Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (FEMAMA), com base em pesquisa da oncologista Cristiana Tavares (UPE/HUOC), revelou que 42% das mulheres diagnosticadas com câncer de mama haviam sofrido algum tipo de agressão antes do diagnóstico. A entidade aponta que a violência doméstica provoca estresse crônico, altera o equilíbrio hormonal e compromete o sistema imunológico, deixando o corpo mais vulnerável a doenças graves.

Do ponto de vista biológico, o estudo indica que o medo constante e a exposição prolongada à violência colocam o organismo em estado permanente de alerta. O aumento contínuo do cortisol — hormônio relacionado ao estresse — reduz as defesas naturais e cria um terreno propício a inflamações e mutações celulares.

Mas a relação entre esses dois universos não se limita ao momento anterior ao diagnóstico. Pesquisa da FEMAMA (2024), em parceria com DataFolha e AstraZeneca, mostrou que uma em cada dez mulheres com câncer de mama foi abandonada pelo parceiro após descobrir a doença, enquanto cerca de 40% perderam o emprego durante o tratamento. Esses dados revelam a persistência da violência sob novas formas — abandono emocional e financeiro —, condutas que a Lei Maria da Penha classifica como violência psicológica e patrimonial (art. 7º, incisos II e V).

Essas informações demonstram que o adoecimento não encerra a violência — ele a revela sob novas expressões, expondo o desamparo afetivo, econômico e institucional que ainda cerca tantas mulheres em tratamento.

A vulnerabilidade emocional se soma à instabilidade social e financeira, ampliando o sofrimento e dificultando a continuidade da jornada de cura.

A violência de gênero é mais do que um crime: é um fenômeno estrutural que atinge o corpo, a mente e a dignidade da mulher, comprometendo direitos fundamentais como a saúde e a integridade. É preciso reconhecer a mulher como sujeito biológico, social e político, e não apenas como vítima no processo penal.

 

Sob essa lente, o câncer de mama deixa de ser visto apenas como uma preocupação de saúde pública e passa a ser compreendido também como um sintoma social.

Reconhecer essa correlação é ampliar o alcance da Lei Maria da Penha, compreendendo que a proteção da mulher é também uma política de promoção da saúde e de justiça social.

 

*Layla Oliveira Gomes é advogada e diretora do Conselho Estadual da Mulher de Goiás. Vice-coordenadora do Plano Nacional de Interiorização da Advocacia (CFOAB) e Ouvidora-Geral e Ouvidora da Mulher da OAB-GO.