O Brasil nunca fez tantos testamentos. Segundo levantamento compilado pelos Cartórios de Notas do país, foram registrados 38.740 testamentos em 2025, o maior número da série histórica e um crescimento de cerca de 21% nos últimos cinco anos, desde 2020. Mais do que um dado estatístico, o recorde revela uma transformação silenciosa: falar sobre herança deixou de ser assunto evitado e passou a representar organização, prevenção e responsabilidade com o futuro da família.
Para a advogada Tatiana Naumann, sócia do Albuquerque Melo Advogados nas áreas de Direito de Família, membro da Comissão de Direito de Família da OAB do Rio de Janeiro, associada ao Instituto Brasileiro de Direito de Família e integrante das comissões de Direito de Família e Sucessões do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), o aumento reflete maior maturidade jurídica da população.
“O aumento no número de testamentos reflete uma mudança cultural importante: as pessoas passaram a compreender que planejamento sucessório não é apenas um instrumento para grandes fortunas, mas uma ferramenta de organização familiar e prevenção de conflitos. A ampliação do acesso à informação jurídica contribuiu para que mais pessoas entendessem a importância de organizar seus bens em vida.”
Entendendo a “regra dos 50%”
Para explicar como funciona a divisão do patrimônio, a especialista usa uma comparação simples: imagine que todos os bens de uma pessoa formam uma pizza dividida em duas partes iguais. Pela legislação brasileira, metade dessa “pizza” é obrigatoriamente reservada aos chamados herdeiros necessários, filhos (descendentes), pais (ascendentes) e cônjuge. Essa parte obrigatória recebe o nome técnico de legítima.
“O testamento não serve apenas para excluir herdeiros, até porque, no Brasil, os herdeiros necessários (descendentes, ascendentes e cônjuge) têm direito à legítima, que corresponde a 50% do patrimônio. A sua importância prática está justamente na possibilidade de o testador dispor dos outros 50% organizando a destinação dos bens conforme sua vontade. Ele pode, por exemplo: beneficiar um filho específico dentro da parte disponível ou deixar bens para terceiros ou instituições”, explica.
Na prática, isso significa que, embora a lei proteja parte da herança da família mais próxima, existe espaço para planejamento estratégico. É possível equilibrar interesses, compensar situações específicas, como um filho que ajudou na empresa da família, ou até incluir causas sociais no planejamento sucessório.
Menos conflito, mais clareza
Outro ponto central destacado pela advogada é o impacto do testamento na redução de disputas judiciais. Sem um documento formal, a divisão segue estritamente a ordem prevista no Código Civil, o que nem sempre reflete a realidade afetiva ou financeira da família.
“Além disso, o testamento reduz conflitos familiares, pois explicita a vontade do falecido, diminuindo disputas judiciais e incertezas interpretativas. Portanto, ainda que não seja um instrumento absoluto de exclusão, ele é fundamental como ferramenta de planejamento sucessório e pacificação familiar”, reforça Tatiana.
Ao detalhar previamente a destinação dos bens, o testamento funciona como uma orientação clara, evitando interpretações divergentes e longas discussões no inventário, processo judicial ou extrajudicial que formaliza a partilha após a morte.
Planejar é um ato de cuidado
Para Tatiana Naumann, o recorde histórico de 2025 demonstra que cada vez mais brasileiros compreendem que planejar a sucessão não significa antecipar o fim, mas proteger quem fica. “Organizar a sucessão é um gesto de responsabilidade. O testamento não é sobre afastar pessoas, mas sobre dar segurança jurídica e emocional à família”, afirma.
Em um cenário de maior acesso à informação e consciência patrimonial, o testamento deixa de ser um documento distante e passa a integrar o planejamento de vida, ao lado de decisões financeiras, empresariais e familiares. Mais do que distribuir bens, trata-se de preservar relações e evitar que o luto seja acompanhado por conflitos.



























