Há homens que passam pelas instituições; e há os que as atravessam.
Luís Roberto Barroso foi dos que as atravessam, e, ao fazê-lo, deixam marcas que não se apagam com a troca das cadeiras.
Chegou ao Supremo em um tempo em que o país ainda acreditava ser possível conciliar fé e razão na política, técnica e coragem na justiça, esperança e Constituição na mesma frase.
E, de certo modo, passou a vida tentando provar que isso ainda era possível.
Barroso foi o ministro do verbo e da travessia.
Trouxe à Corte a inquietação dos humanistas, aqueles que, como ensinava Montaigne, “não pretendem dominar o mundo, mas compreendê-lo”.
Fez do plenário um espaço de ideias, e não apenas de vereditos; de escuta, não apenas de dogmas.
Sua presença lembrava, a cada sessão, que o direito é também uma forma de poesia institucional: o esforço de colocar em ordem o caos, com palavras e princípios.
Agora, anuncia a partida.
Mas o tempo não leva embora os que pensaram o país em voz alta.
A história guarda, entre as linhas dos acórdãos, os lampejos dos que ousaram dizer o óbvio quando o óbvio era perigoso: que a Constituição é um pacto de dignidade, e que o Brasil merece ser maior do que o seu medo.
Como Ulisses, Barroso retorna à sua Ítaca.
Cumpriu a jornada, enfrentou as tempestades, resistiu aos cantos das sereias do poder e volta, talvez cansado, mas inteiro.
Porque o ofício dos que creem na democracia é esse: navegar, mesmo quando não há vento.
O Supremo continuará.
Mas algo se recolhe com ele: o clarão da palavra, o gesto do professor, a crença teimosa e bela de que a justiça pode ser também uma forma de esperança.
E quando, um dia, a história olhar para trás e tentar decifrar este tempo, talvez diga que, em meio ao ruído, houve um homem que acreditou no poder silencioso das ideias.
E que, por isso, o seu tempo, o tempo de Barroso, não termina: apenas muda de voz.
*Matheus Costa é advogado constitucionalista




























