A República tutelada

Kowalsky Ribeiro*

Leonel Brizola tinha uma frase incômoda para os covardes da política: “quem não tem coragem não merece fazer política”. O velho caudilho gaúcho compreendia algo que Brasília desaprendeu há muito tempo: democracia pressupõe risco. Não existe soberania popular sem a possibilidade concreta de o povo produzir resultados que desagradem as elites, os jornais, os tribunais, os financistas ou os iluminados de ocasião.

Há alguns dias, ao receber um convite meu para um encontro político em Goiânia, o jornalista Leandro Coutinho respondeu com uma frase curta: “parabéns pela coragem”. Confesso que a observação permaneceu ecoando mais tempo do que deveria. Não pelo elogio, mas pela naturalidade com que a palavra coragem passou a frequentar atos absolutamente ordinários da vida democrática brasileira, como conversar, construir pontes, divergir sem ódio ou simplesmente permanecer na arena pública sem aderir às histerias organizadas do nosso tempo.

E talvez resida aí o mérito da provocação inteligente feita por Leandro. Os bons jornalistas possuem essa irritante virtude de condensar diagnósticos inteiros em meia dúzia de palavras aparentemente despretensiosas. Sua resposta, bem-humorada e aguda ao mesmo tempo, acabou funcionando como gatilho involuntário para uma reflexão mais ampla sobre o estado emocional da República. Afinal, quando a política passa a exigir coragem até para os gestos mais elementares de convivência institucional, talvez o país esteja revelando sintomas mais profundos do que imagina.

O Brasil de 2026, entretanto, parece caminhar para uma experiência inédita: uma democracia conduzida sob vigilância institucional permanente, como se a República tivesse passado a desconfiar estruturalmente da própria sociedade que afirma representar.

A política brasileira vive hoje sob uma espécie de tutela preventiva. Tudo é monitorado, moderado, interpretado, enquadrado, regulado, supervisionado. O debate público transformou-se numa mistura estranha de liturgia jurídica, gerenciamento de crise e controle de danos reputacionais. Já não se discute apenas o que é legal ou ilegal. Discute-se o que é aceitável. E esta talvez seja a mutação mais perigosa do ambiente institucional contemporâneo.

Aceitabilidade é um conceito sedutor para burocracias. Possui aparência de prudência, vocabulário técnico e pretensão moral. O problema é que democracias não foram concebidas para produzir conforto institucional. Foram concebidas para administrar conflitos humanos em larga escala.

O Estado brasileiro, especialmente após os traumas políticos da última década, passou a desenvolver um instinto de autopreservação quase orgânico. O Supremo Tribunal Federal ampliou seu protagonismo político, o TSE consolidou-se como centro estratégico da estabilidade eleitoral, o Congresso Nacional tornou-se refém crônico de crises de legitimidade e o Executivo oscila permanentemente entre a governabilidade negociada e o medo das convulsões digitais.

Nesse ambiente, surgiu uma nova figura política nacional: o Estado-Candidato.

Não se trata mais apenas do Estado organizando eleições. Trata-se do Estado delimitando emocionalmente os contornos possíveis da própria disputa política. Há uma diferença importante entre garantir a democracia e administrar preventivamente os resultados toleráveis da democracia.

O tema é delicado porque os riscos concretos existem. Há desinformação profissionalizada, radicalização algorítmica, estruturas criminosas digitais, manipulação em massa e financiamento obscuro de ecossistemas de influência. Negar isso seria infantilidade analítica. O problema é que o enfrentamento dessas deformações começou a produzir outro fenômeno igualmente preocupante: a hipertrofia silenciosa dos mecanismos de contenção política.

A República passou a agir como uma mãe exausta diante de filhos emocionalmente instáveis. Supervisiona horários, discursos, impulsos e comportamentos. Tudo em nome da estabilidade O que demais pode produzir anemia democrática.

Enquanto isso, existe um aspecto quase obsceno da política nacional que continua tratado com espantosa naturalidade pelas estruturas oficiais: a incompatibilidade crescente entre o custo real da vida política contemporânea e os rendimentos formais da atividade pública.

Pouco se fala sobre isso porque Brasília construiu um pacto de silêncio extremamente eficiente. A política ficou cara. Não apenas eleitoralmente cara. Existencialmente cara. O mandatário moderno não disputa apenas votos. Disputa percepção estética de sucesso. Precisa performar influência, trânsito social, sofisticação, acesso, potência simbólica. A era das redes sociais transformou a política numa vitrine permanente de lifestyle institucional.

E aí surge a hipocrisia central da República contemporânea. Exige-se do político presença constante em ambientes de poder, circulação social sofisticada, capacidade de articulação permanente, estética de liderança, influência digital profissionalizada e participação contínua em ecossistemas de prestígio incompatíveis com os rendimentos ordinários da função pública.

A conta simplesmente não fecha. Nunca fechou. Mas hoje ela se tornou visivelmente insustentável. Não estamos mais falando de buscar um vestido para filha no Rio de Janeiro. O de noiva em São Paulo, claro. Não se trata do cabelo brilhoso no carro de rabo de peixe. Afinal, os antigos coronéis financiavam currais eleitorais oferecendo estadias em grandes centros. Os novos mecenas financiam permanência simbólica no topo da cadeia de influência social. Mudaram os métodos, sofisticaram-se os contratos, profissionalizaram-se as relações, mas a dependência estrutural entre poder político e financiamento privado continua existindo sob novas roupagens semânticas. O que assusta os políticos da imagem e os financistas dos leilões multimilionários, é que estão prendendo os mecenas.

Aí um chamado a reflexão e, um pedido de escusas pela repetição do centro da ideia. Observe, Brasília desenvolveu uma elite curiosa: homens públicos formalmente remunerados como servidores, mas socialmente pressionados a viver como acionistas de conglomerados financeiros.

É neste ponto que a República começa a produzir suas maiores contradições morais. Discursa-se intensamente sobre ética discursiva, moderação digital e integridade democrática, mas permanece quase intocado o subterrâneo sistema de financiamento indireto do poder social em Brasília. O problema já não está apenas no financiamento eleitoral clássico. Está no custeio informal dos ambientes de pertencimento político.

Raymundo Faoro perceberia rapidamente a mutação: o patrimonialismo brasileiro deixou de operar apenas pela posse direta do Estado. Passou a operar também pela captura social dos indivíduos que transitam em torno dele. E, a política do binômio barriga-bolso vai cedendo lugar para a política da percepção. Da recepção dos sete buracos que compõem a cabeça.

E enquanto o país discute liberdade de expressão, fake news e inteligência artificial, uma pergunta muito mais profunda permanece sem resposta: quem financia a estética do poder contemporâneo?

É perigosamente corrosivo na democracia: quando a sociedade passa a desconfiar simultaneamente da política, dos empresários, da imprensa, das plataformas digitais, dos partidos e das próprias instituições encarregadas de arbitrar os conflitos republicanos.

A confiança pública tornou-se um recurso escasso. Talvez por isso o Estado brasileiro tenha assumido progressivamente uma postura tutelar. A tutela nasce quase sempre do medo. Medo do colapso, medo do radicalismo, medo da desordem, medo da ruptura. O problema é que toda tutela prolongada produz infantilização política.

E povos tratados permanentemente como incapazes acabam perdendo musculatura cívica.

Brizola compreendia isso intuitivamente. Sabia que democracia sem povo forte vira administração tecnocrática de obediências moderadas. Talvez por isso ainda incomode tanto mesmo décadas após sua morte. Ele pertencia a uma geração que acreditava que política era enfrentamento de interesses concretos, e não mera gestão estética de consensos supervisionados.

O Brasil de 2026 parece dividido entre duas tentações igualmente perigosas: a barbárie digital e o excesso de contenção institucional.

Entre o caos e a tutela existe um espaço estreito chamado maturidade republicana. É nele que as democracias sobrevivem.

Mas sobreviver exige coragem.

E coragem, infelizmente, tornou-se artigo raro numa República cada vez mais fascinada pela administração do medo.

*Kowalsky do Carmo Costa Ribeiro é advogado, especialista em Direito Legislativo e Procurador-Geral da Câmara Municipal de Goiânia.