Kowalsky Ribeiro*
O trabalho não é uma opção; assim como o estudo, ele jamais poderia sê-lo. Cresci sob a batuta de um exemplo sólido: sou filho de um gestor público e jornalista prático, e de uma mãe cuja vida foi dedicada ao serviço público no Poder Judiciário. Em nossas casas, o ofício e a formação acadêmica nunca foram moedas de troca ou escolhas de conveniência, mas pilares imprescindíveis de caráter. Aprendi, cedo, que a dignidade não se pede; constrói-se no suor e na letra.
Recentemente, ao enfrentar um revés político, Jorge Messias — então Advogado-Geral da União — resgatou a memorável e cortante síntese do Senador Darcy Ribeiro:
“Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”
A profundidade dessa entrega nos convoca, neste Dia do Trabalho, a uma reflexão que transcende o feriado: por onde anda o trabalhismo brasileiro e, de forma premente, qual a sua aplicação necessária em Goiás? O que resta, hoje, do ideal de Darcy, da firmeza de Getúlio Vargas, da audácia de Leonel Brizola ou da resistência de Carlos Lupi?
Ao observarmos a atual vacuidade de políticas públicas robustas, somos forçados a uma interrogação ética: onde está o Estado para quem madruga nas cidades goianas? Onde se encontra a política clara de investimento em educação profissionalizante que dialogue com as vocações regionais? Onde está a geração de emprego que não seja apenas ocupação precária, mas qualificação com salvaguardas reais para quem, no dizer popular, “carrega o piano”?
O trabalhismo, em sua essência, nunca foi sobre a concessão de benesses, mas sobre a arquitetura da justiça social. Contudo, o que vemos hoje é a redução de um debate secular a uma discussão rasa sobre “pseudo-folgas”. A polêmica atual sobre a escala 6×1 expõe as vísceras desse sistema: como exigir que o trabalhador goiano se qualifique, como queria Darcy, se o tempo que lhe resta após seis dias de labuta é apenas o necessário para a recomposição biológica das forças? A folga única, muitas vezes rotativa e incerta, é uma pseudo-folga; um hiato de exaustão que não permite o lazer, o estudo ou o exercício da cidadania. É o tempo de vida sendo confiscado pela lógica da subsistência.
Ao reduzirmos o debate sobre a jornada de trabalho a uma mera questão de custos operacionais, ignoramos o Artigo 6º da Constituição Federal. O descanso e o lazer são direitos sociais fundamentais. A manutenção de escalas exaustivas sob o pretexto da competitividade econômica é, na verdade, uma afronta à dignidade da pessoa humana. O trabalhismo clássico não lutava apenas por feriados, mas pelo direito do homem de ser senhor do seu próprio tempo.
Vargas projetou um Brasil de chaminés e engrenagens. O trabalhador da era varguista, embora inserido em um regime de controle, tinha a promessa de um destino. O crachá da indústria era um passaporte para a classe média, com férias, previdência e uma carreira linear. Hoje, a “uberização” desintegrou essa estrutura. O operário de macacão deu lugar ao “colaborador” de mochila térmica ou ao motorista que aluga o próprio instrumento de trabalho. O que se vende como “liberdade” é, na prática, a transferência total do risco do negócio para o indivíduo. Sem o amparo do Estado, o trabalhador torna-se uma peça descartável de um algoritmo que não tem rosto nem endereço.
Onde Vargas fundava a CSN para forjar o aço nacional, hoje vemos o país se especializar em exportar minério bruto e soja para importar tecnologia de alto valor. “Terras Raras”, abundante contradição. Goiás, terra de rara gente resiliente, assiste ao Estado ser um mero espectador da força de trabalho. É preciso que as instituições resgatem o papel indutor do desenvolvimento. Não basta o crescimento do PIB se ele não se traduz em bem-estar para o operador da máquina. Nosso Estado, embora pujante, carece de uma rede de proteção que transforme o “trabalho bruto” em “carreira digna”.
O Poder Executivo goiano deveria ser o indutor da inteligência aplicada, e não apenas um arrecadador de impostos sobre o suor alheio. A tal “Retomada”? No momento, parece servir apenas para palcos e shows — o velho “pão e circo”. É sintomático: não existe sequer uma pasta dedicada exclusivamente ao Trabalho no Governo de Goiás. Assistimos, incrédulos, ao mesmo velho filme: retrocedemos à lógica extrativista, exportando o peso do nosso chão e importando a inteligência alheia, enquanto o trabalhador goiano é reduzido a uma engrenagem invisível. Trocamos o projeto de Nação pela conveniência do consumo, e o preço é o esvaziamento da cidadania.
O “fracasso” de Darcy Ribeiro é, na verdade, um troféu ético que denuncia a pequenez daqueles que governam de costas para o povo. O trabalhismo clássico lutava por tempo de vida; ao ignorar isso, o Estado permite que o trabalho retorne a ser uma forma de servidão moderna, travestida de progresso.
Que este Dia do Trabalho não seja apenas uma pausa no calendário, mas o despertar de uma consciência crítica. O trabalhismo precisa deixar de ser um saudosismo de bustos de bronze para se tornar, novamente, o motor de uma política de Estado que proteja, qualifique e, acima de tudo, respeite quem faz a engrenagem deste país girar. Afinal, como diria o mestre Darcy, prefiro o peso de lutar por um ideal difícil do que o vazio de estar no lugar daqueles que venceram ignorando a justiça.
*Kowalsky do Carmo Costa Ribeiro é advogado, especialista em Direito Legislativo e Procurador-Geral da Câmara Municipal de Goiânia.



























