Edemundo Dias de Oliveira Filho*
O termo “sicário” voltou ao centro do debate nacional após a Operação Compliance Zero, da Polícia Federal. O coordenador de segurança Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, 43 anos, conhecido como “Sicário” em mensagens interceptadas, morreu em 6 de março sob custódia da Superintendência da PF em Belo Horizonte (MG). A versão oficial é suicídio por enforcamento com a própria camisa nas grades da cela. No entanto, análise criminológica e psicopatológica aponta inconsistências graves com o perfil do investigado e levanta, em tese, a hipótese de “queima de arquivo”
O sicário não é figura nova. Surgiu no século I, na Judeia ocupada por Roma. Os sicários históricos – nome derivado da “sica”, pequena adaga curva – misturavam-se às multidões em festas religiosas, apunhalavam colaboradores do Império e desapareciam no pânico. Motivados por convicção religiosa e política. Eram zelotes armados, extremistas, dispostos ao autosacrifício, como demonstraram na resistência de Massada em 73 d.C.
Séculos depois, o termo mudou completamente de sentido e de conceito. Na máfia siciliana e na Cosa Nostra ítalo-americana, o sicário tornou-se o “profissional da violência mercantilizada”: executor frio, leal à hierarquia, mas pago para eliminar ameaças e desafetos. Hoje, ele integra milícias, cartéis e grupos de extermínio. No Brasil, o fenômeno ganha contornos próprios, com policiais e ex-agentes estatais atuando como braços armados de empresários e políticos.
O caso de Mourão encaixa-se perfeitamente nessa categoria: o sicário organizacional de alto funcionamento. Ele recebia R$ 1 milhão por mês de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master (liquidado pelo Banco Central em 2025). O pagamento, comprovado por planilhas e mensagens de WhatsApp, custeava a “Turma” – milícia privada que monitorava jornalistas, invadia sistemas da PF, MPF, FBI e Interpol, ameaçava ex-funcionários, simulava assaltos e removia conteúdos críticos da internet.
A estrutura era clara: quatro núcleos (financeiro, corrupção, lavagem de dinheiro e coação/intimidação). Mourão coordenava o núcleo operacional. Entre os integrantes identificados está o ex-escrivão da Polícia Federal Marilson Roseno da Silva, preso na mesma operação. A PF estima que só entre 2024 e 2025 o Sicário tenha recebido no mínimo R$ 24 milhões por serviços ilícitos, que ainda precisam ser melhor esclarecidos: quais “serviços” foram realizados?
O ponto mais grave é a sua morte sob custódia. O perfil psicopatológico traçado – frieza emocional, ausência de remorso, controle total e racionalidade instrumental – é incompatível, cientificamente, com o perfil suicida. Psicopatas nesse nível, de alto funcionamento (escala PCL-R de Robert Hare) externalizam agressão; não a voltam contra si. O enforcamento com a própria camisa em cela de segurança máxima, sem pontos cegos nas câmeras, em menos de 10 minutos até a intervenção, contraria o instinto de sobrevivência e a capacidade estratégica do sicário profissional.
A defesa confirmou o óbito após morte encefálica. A PF abriu inquérito interno, entregou vídeos ao ministro André Mendonça (STF, relator da operação) e afirma que os agentes agiram com diligência. Parlamentares, no entanto, aprovaram requerimentos para CPI, visita técnica à PF-MG e investigação da PGR.
Atenção: a perícia criminal – laudo de autópsia, exame toxicológico e análise das lesões no pescoço – torna-se indispensável para diferenciar enforcamento voluntário de estrangulamento ou esganadura simulada.
A Operação Compliance Zero, que bloqueou até R$ 22 bilhões em bens, expõe como o crime organizado infiltra-se em altos círculos empresariais e políticos. O caso Mourão revela fragilidades do sistema prisional brasileiro: vulnerabilidade de presos de alta periculosidade, risco de infiltração e necessidade urgente de transparência em mortes sob custódia.
Compreender o sicário – de suas raízes ideológicas à versão mercantilizada atual – é essencial para prevenção e repressão eficazes. Enquanto, porém, o inquérito da PF e a CPI do Senado avançam, a verdade sobre a morte de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão ainda depende de perícia rigorosa. Sem ela, o risco é que mais um episódio polêmico seja sepultado junto com o investigado e pode comprometer fatalmente a verdade real de todo esse assombroso escândalo que vem abalando as estruturas dos poderes da República e todo arcabouço do Estado Democrático de Direito no Brasil.
*Edemundo Dias de Oliveira Filho é advogado. Delegado de Polícia veterano. Especialista e mestre em Segurança e Direito Públicos. Pesquisador e erofessor de Criminologia.


























