Luis Henrique Borrozzino, sócio do M3BS Advogados e membro da Comissão de Direito do Trabalho da OAB/SP, assina o texto da coluna desta quarta-feira (15). Ele trata sobre o retorno ao trabalho presencial, citando caso recente envolvendo o Banco Itaú.

Leia a íntegra do texto:
A recente decisão do Itaú de dispensar funcionários após avaliar a produtividade no home office expõe um dilema que vem ganhando força no mercado de trabalho brasileiro: a volta ao modelo 100% presencial.
Segundo levantamento da Catho, 69% das empresas no país pretendem adotar esse regime esse ano. O movimento reflete uma percepção ainda dominante de que a presença física garante maior integração entre equipes, maior desempenho e mais agilidade na tomada de decisões. Nesse contexto, muitas empresas e escritórios têm retomado espaços físicos e reorganizado estruturas para receber novamente seus colaboradores.
No entanto, a questão está longe de ser simples, afinal de contas, é preciso reconhecer que, em determinadas atividades, o trabalho remoto pode, sim, trazer prejuízos. Isso acontece sobretudo em funções que exigem interação contínua, decisões rápidas, colaboração intensa ou atendimento direto ao público de modo que, nesses casos, a presença física segue relevante.
Outro ponto é que o home office demanda disciplina e discernimento. Trabalhar de casa não pode ser confundido com um “day off” ou o dia para resolver questões pessoais.
Essa percepção equivocada ainda persiste e, muitas vezes, prejudica a imagem do home office, colocando em desvantagem os profissionais que exercem suas funções com seriedade e responsabilidade.
Por outro lado, não se pode ignorar a resistência crescente à perda de flexibilidade.
Pesquisas internacionais indicam que 27% dos trabalhadores cogitam trocar de emprego quando obrigados a abandonar o home office. No Brasil, um estudo da IWG reforça a tendência: 71% dos profissionais recusariam vagas que exigem longos deslocamentos e 72% só aceitariam cargos se houvesse algum grau de flexibilidade.
Ou seja, enquanto as empresas buscam proximidade e produtividade, correm o risco de perder justamente os talentos mais disputados, em especial os jovens que valorizam autonomia, equilíbrio e qualidade de vida.
Na prática, é isso que vem ocorrendo, sendo imprescindível destrinchar esse evidente paradoxo, pois como conciliar a busca por alta performance com a necessidade de reter talentos em um mercado cada vez mais competitivo?
A resposta não parece estar em modelos rígidos, mas sim no equilíbrio.
O trabalho híbrido desponta como a alternativa mais sensata, pois permite que a convivência presencial seja utilizada de forma estratégica, sem renunciar à flexibilidade.
Nessa linha, o trabalho híbrido se apresenta como a alternativa mais sensata, pois permite que a convivência presencial seja utilizada de forma estratégica, quando realmente necessária, ao mesmo tempo em que preserva a flexibilidade tão valorizada pelos profissionais.
A título de exemplo, mesmo a concessão de ao menos 1 (um) dia de home office por semana já pode representar um diferencial significativo, conciliando as necessidades de integração das empresas com o desejo de autonomia dos profissionais.
Em última análise, trata-se de adotar o bom senso como ferramenta de gestão, unindo disciplina e responsabilidade no remoto com a força do presencial, garantindo produtividade sustentável e maior capacidade de retenção de talentos.


























