Cristiana Abreu*
Setembro Amarelo nos convida a falar sobre saúde mental, mas, para além de uma campanha, precisamos transformar esse diálogo em cuidado permanente. Afinal, para muitos de nós, o trabalho é quase uma segunda casa. É onde passamos boa parte dos nossos dias, construímos relações, realizamos sonhos, desenvolvemos talentos e encontramos sentido em tantas atividades. Mas também é um espaço de pressão, sobrecarga e, quando faltam condições adequadas, de adoecimento.
Os números mostram que não estamos diante de um problema isolado. Dados do Ministério da Previdência Social apontam que 472.328 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais foram concedidos em 2024, um aumento de 68% em relação ao ano anterior. Ansiedade, depressão e estresse grave estão entre as principais causas.
No Poder Judiciário, essa realidade também precisa ser enfrentada. Problemas de saúde mental aparecem entre os principais motivos de afastamento e figuram como o quinto fator de licença médica para servidores. O 2º Censo do Poder Judiciário revela que 47,9% dos servidores relatam ansiedade e 37,4% convivem com estresse. Além disso, 18,1% dos servidores afirmam utilizar regularmente medicamentos para estresse ou ansiedade.
O nosso trabalho exige concentração, responsabilidade, cumprimento de prazos, produtividade e, muitas vezes, contato diário com conflitos, sofrimento, violência e histórias que carregam enorme carga emocional. A estabilidade do serviço público, tão importante para a independência e a continuidade da prestação jurisdicional, não significa ausência de pressão ou de sofrimento. Servidor público também adoece.
O próprio Conselho Nacional de Justiça reconhece essa realidade. A Resolução CNJ nº 207/2015 instituiu a Política de Atenção Integral à Saúde de Magistrados e Servidores do Poder Judiciário, estabelecendo diretrizes para a promoção e preservação da saúde física e mental e para a construção de ambientes de trabalho seguros e saudáveis. Em 2025, a Resolução nº 623 atualizou a política e aprimorou a coleta de dados sobre saúde mental, reconhecendo a importância crescente do tema e a necessidade de combater a subnotificação dos casos de adoecimento.
Por isso, cuidar da saúde mental não pode significar ensinar o trabalhador a suportar melhor a pressão. Precisamos olhar para aquilo que produz essa pressão: excesso de demandas, falta de reconhecimento, relações adoecidas, assédio, metas incompatíveis com a realidade, jornadas que não respeitam os limites humanos e a dificuldade de conciliar trabalho, família e vida pessoal.
Acredito que a defesa da saúde dos servidores faz parte da nossa luta por valorização. Não queremos apenas servidores produtivos, mas respeitados, reconhecidos e saudáveis. Neste Setembro Amarelo, o nosso alerta é também pela vida de todos os trabalhadores. Que possamos construir, juntos, um Judiciário em que cuidar das pessoas seja tão importante quanto cuidar da prestação jurisdicional.
*Cristiana Abreu é presidente do Sindicato dos Servidores e Serventuários da Justiça do Estado de Goiás.


























