Transporte Rodoviário Alemão e os mitos brasileiros

Não há forma melhor para desmistificar e quebrar vários paradigmas que observar de perto o que ocorre naquele que é tido como o mais avançado país do Bloco Europeu, a Alemanha, especialmente no que se refere ao modal de transporte rodoviário.

De pronto observa-se um país inteiramente cortado por rodovias de excelente qualidade, as interestaduais, inclusive, sem limite de velocidade para trafegar (mas em muitos trechos há limites mínimos de velocidade por faixa).

Isso traz à reflexão as campanhas para diminuição de acidentes de trânsito no Brasil, todas ligadas ao respeito dos limites de velocidade.

Posso testemunhar que percorri mais de 800 quilômetros de estradas, todas abarrotadas de veículos, principalmente caminhões e treminhões, com carros de passeio em altíssimas velocidades (muitos acima dos 200km/h) e não vi nenhum, repito, nenhum acidente. E destaco, por fidelidade ao relato, que muitos trechos foram feitos sob chuva intensa.

Logo, atrelar o elevado número de acidentes ao excesso de velocidade parece simplismo tupiniquim.

Outros componentes, em terras brasileiras, parecem contribuir bem mais para os acidentes que propriamente a velocidade: a massa asfáltica aqui é de péssima qualidade (conquanto nas autobans pude observar em um trecho em obras uma manta de asfáltica com mais de 20 cm de espessura), o que gera deformidades na pista e buracos em demasia. Falta sinalização e infraestrutura verdadeiramente empreendida com foco na segurança por essas bandas de cá.

Certamente um importante componente na composição do nosso número elevado de acidentes pode ser atribuído à própria malha rodoviária. Além disso, a péssima qualidade do nosso asfalto incrementa escandalosamente o custo da logística no nosso país quando comparado com o custo da logística rodoviária alemã.

E por falar em qualidade do asfalto, é comum também se ouvir que o elevado número de veículos pesados nas estradas danifica o asfalto. Qual asfalto? Não deparei com sequer uma única balança no longo trecho de estrada que percorri na Alemanha. Além disso, chamava a atenção o número elevadíssimo de caminhões grandes e pesados trafegando nas estradas. E não havia nenhum trecho danificado.

Portanto, quebra-se outro mito. Se a massa asfáltica fosse de qualidade, não seriam os caminhões os culpados…

Outra questão que chama a atenção é o fato de todas as rodovias alemãs terem sido construídas, serem mantidas e operadas pelo próprio Estado, não existindo por lá a figura da concessionária de rodovia. Sequer o Estado cobra do usuário pela utilização das rodovias. Elas são integralmente custeadas, como também são custeados a saúde, segurança e educação, pelos 19% aproximadamente, que o cidadão paga de tributos ao governo em terras alemãs.

Também nas estradas, de poucos em poucos quilômetros encontram-se áreas de paradas, arborizadas, estruturadas, todas igualmente construídas e mantidas pelo Estado, para que os motoristas, principalmente profissionais, possam descansar e passar a noite em segurança no interior do veículo.

Com esses – e tantos outros mitos rompidos – resta a pergunta: o que, para além do Atlântico, nos torna tão distante daquela realidade? O povo, a cultura, o Estado???

*LUDMILLA ROCHA CUNHA RIBEIRO, Advogada, pós-graduada em Direito Público, Direito do Trabalho e Processo do Trabalho, L.LM em Direito Empresarial pela FGV (em curso).