Evandro Grili*
O ESG amadureceu. E talvez a principal mudança dos últimos anos tenha sido justamente o fato de a agenda deixar de ocupar apenas o campo do discurso institucional para ingressar definitivamente na lógica da gestão empresarial — e também jurídica.
Durante muito tempo, sustentabilidade corporativa esteve associada quase exclusivamente à reputação. Relatórios, campanhas e compromissos públicos funcionavam como elementos de posicionamento de marca. Hoje, porém, investidores, consumidores, parceiros comerciais e órgãos reguladores passaram a exigir algo mais concreto: metas, indicadores, rastreabilidade e governança.
Essa mudança alterou a própria dinâmica do ambiente de negócios. Questões ambientais, sociais e de governança deixaram de ser temas periféricos para influenciar decisões estratégicas, acesso a crédito, valuation, gestão de riscos e relações comerciais.
Ao mesmo tempo, cresceu a preocupação com práticas de greenwashing — quando o discurso sustentável não é acompanhado de medidas efetivas ou verificáveis. Nesse novo cenário, transparência passou a ser tão importante quanto intenção. Não basta afirmar compromisso com sustentabilidade; é necessário demonstrar capacidade de implementação, monitoramento e prestação de contas.
É nesse ponto que o setor jurídico ganha relevância. O movimento também alcançou escritórios de advocacia e departamentos jurídicos, que passaram a integrar discussões relacionadas à governança, compliance, gestão de riscos socioambientais, contratos, due diligence e segurança regulatória. Mais do que acompanhar tendências, o jurídico passou a exercer papel estratégico Isso inclui desde a interpretação de novas exigências regulatórias até a construção de mecanismos internos de integridade, transparência e responsabilidade corporativa. Também envolve a análise dos riscos associados à distância entre o que a empresa comunica e aquilo que efetivamente consegue comprovar.
Nesse contexto, relatórios ESG deixam de funcionar apenas como peças de comunicação institucional e passam a refletir processos internos de gestão, definição de metas e consolidação de cultura organizacional. Quanto mais pública se torna a agenda de sustentabilidade de uma empresa, maior precisa ser sua capacidade de demonstrar coerência documental, operacional e jurídica.
A agenda ESG ainda está em evolução e certamente continuará sujeita a ajustes, críticas e amadurecimento. Mas um ponto parece consolidado: sustentabilidade corporativa deixou de ser um elemento acessório de imagem para se tornar parte da estratégia empresarial e da governança das organizações.
Hoje, mais do que aderir a uma tendência, empresas são chamadas a demonstrar coerência entre discurso, gestão e impacto real. E essa coerência, cada vez mais, também depende da capacidade de transformar compromissos em práticas verificáveis, seguras e juridicamente sustentáveis.
*Evandro Grili é advogado especialista em meio ambiente e sustentabilidade. Sócio e diretor-executivo do Brasil Salomão e Matthes Advocacia.


























