Entre a ignorância e a recusa do conhecimento: o colapso do debate racional

Marcelo Bareato*

Há momentos na história em que as sociedades parecem perder a capacidade de reconhecer os próprios erros. Não se trata apenas de crises políticas, econômicas ou institucionais — estas sempre existiram. O que realmente distingue certos períodos é a deterioração do debate público e a progressiva incapacidade de lidar com a realidade tal como ela é.

A história humana nunca foi linear. Civilizações avançam, tropeçam, retrocedem e, por vezes, encontram novamente o caminho do progresso. A evolução coletiva sempre dependeu de um elemento essencial: a disposição para aprender, dialogar e corrigir rumos. Quando esse elemento desaparece, não é apenas a política que se degrada — é a própria inteligência social que entra em colapso.

Durante muito tempo, mesmo nas divergências mais profundas, ainda havia algum compromisso com a razão. As sociedades conseguiam, de maneira imperfeita, mas funcional, distinguir o erro corrigível da obstinação irracional. Os equívocos dos tolos, ainda que frequentes, não eram necessariamente permanentes. A ignorância podia ser combatida pela experiência, pelo estudo e pela confrontação honesta com os fatos.

O problema contemporâneo parece residir em algo mais profundo: a substituição gradual da ignorância pela recusa deliberada do conhecimento.

É preciso reconhecer a diferença.

O tolo erra porque não sabe. Sua limitação é cognitiva, mas não necessariamente moral. Quando confrontado com a evidência, pode recuar, reconsiderar e, eventualmente, aprender. A história do progresso humano, afinal, está repleta de equívocos corrigidos.

O imbecil, entretanto, representa um fenômeno distinto. Ele não apenas ignora — ele milita contra a própria possibilidade de compreender. Sua relação com a realidade não é de investigação, mas de negação. Diante de fatos inconvenientes, reage com indignação; diante de argumentos sólidos, substitui o raciocínio pelo grito. Não busca compreender, mas impor. Não procura a verdade, mas a vitória retórica.

Nesse ambiente, a lógica perde espaço para a teatralização permanente do conflito. A responsabilidade individual é dissolvida em narrativas de vitimização coletiva, e a culpa torna-se sempre externa: do sistema, da sociedade, das circunstâncias ou de qualquer outro elemento que permita preservar intacta a própria convicção.

É nesse terreno que prosperam algumas das distorções mais corrosivas do nosso tempo. Multiplicam-se os discursos que reivindicam direitos sem qualquer menção a deveres. Naturaliza-se a dependência estrutural do assistencialismo como se fosse solução permanente, e não instrumento transitório. O fracasso pessoal transforma-se em acusação pública, enquanto o mérito passa a ser tratado com suspeita ou desprezo.

Não se trata, evidentemente, de negar desigualdades ou dificuldades reais. O problema surge quando a explicação das dificuldades passa a substituir completamente o esforço de superá-las. Quando a narrativa da injustiça permanente passa a ocupar o espaço que antes pertencia à responsabilidade individual e ao esforço intelectual.

Nesse momento, algo essencial se perde: a confiança de que o conhecimento, o trabalho e a disciplina ainda são caminhos legítimos de ascensão e transformação.

Recuperar essa confiança talvez seja o grande desafio de nossa época. Não apenas por razões econômicas ou institucionais, mas por uma questão civilizatória. Sociedades que abandonam o valor do estudo, da reflexão e do debate racional acabam inevitavelmente reféns do ruído, da simplificação e do ressentimento.

E quando o barulho substitui o argumento, o empobrecimento não é apenas material. Ele se torna, antes de tudo, intelectual e moral.

Porque nenhuma sociedade consegue avançar quando o espaço do diálogo é ocupado pelo grito — e quando a verdade passa a ser tratada não como algo a ser buscado, mas como algo a ser combatido.

*Marcelo Bareato é doutorando em Direito Público pela Universidade Estácio de Sá/RJ, ocupa a cadeira de n.º 21 na Academia Goiana de Direito, professor de Direito Penal, Processo Penal, Legislação Penal Especial, Direito Internacional Público, Relações Humanas, Criminologia e Execução Penal na PUC/GO e na EBPÓS – Escola Brasileira de Pós Graduação, Conferencista, Parecerista, Advogado Criminalista, Presidente do Conselho de Comunidade na Execução Penal de Goiânia/GO, Presidente da ABRACRIM/GO – Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas – Seccional Goiás, Vice Presidente da Comissão Especial de Política Criminal da OAB/Nacional, Membro do Comitê Estadual de Prevenção e Combate à Tortura/GO, Coordenador da Comissão Intersetorial de Acompanhamento da Saúde no Sistema Prisional/GO, Membro do FOCCO – Fórum Permanente de Combate à Corrupção do Estado de Goiás, Membro da ABA – Associação Brasileira dos Advogados, Membro da AASP – Associação dos Advogados do Estado de São Paulo/SP, Membro do IBCcrim – Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, Membro do Instituto Ibero-americano de Compliance, Membro Efetivo do IAB – Instituto dos Advogados Brasileiros, entre outros (ver currículo lattes http://lattes.cnpq.br/1341521228954735) .