Tok&Stok e Mobly expõem o verdadeiro colapso das empresas brasileiras

Rafael Brasil*

O pedido de recuperação judicial do grupo responsável pelas marcas Tok&Stok e Mobly não deve ser analisado apenas como mais uma crise corporativa de grandes varejistas. O caso revela algo muito mais profundo: o esgotamento financeiro progressivo das empresas brasileiras diante de um ambiente econômico que se tornou praticamente insustentável para quem depende de crédito, consumo e capital de giro.

Nos últimos anos, a recuperação judicial deixou de ser exceção. Ela passou a ocupar espaço permanente no noticiário econômico nacional. O problema é que isso não representa amadurecimento do instituto jurídico nem maior profissionalização do empresariado. Representa, na verdade, o avanço de uma crise estrutural silenciosa que vem consumindo empresas de diferentes setores.

Existe uma leitura equivocada sendo construída no Brasil de que o aumento das recuperações judiciais demonstra que as empresas passaram a utilizar melhor os mecanismos legais de reorganização. Não é isso que os números mostram. O que os dados revelam é que as empresas estão chegando ao limite financeiro cada vez mais rápido.

O cenário econômico brasileiro se tornou extremamente hostil para o setor produtivo. Juros elevados durante longo período, crédito restrito, consumo enfraquecido e aumento da inadimplência criaram um ambiente onde muitas empresas passaram a operar apenas para sobreviver ao mês seguinte. Em determinados setores, especialmente varejo e agronegócio, o fluxo de caixa deixou de ser ferramenta de crescimento e passou a funcionar como mecanismo de defesa.

O caso Tok&Stok e Mobly simboliza exatamente essa realidade. Não se trata de empresas desconhecidas, sem mercado ou sem estrutura operacional. São marcas consolidadas, com relevância nacional, presença digital e reconhecimento do consumidor. Ainda assim, sucumbiram à deterioração financeira provocada pelo custo do dinheiro e pela retração econômica.

Isso expõe um ponto importante: a crise deixou de atingir apenas empresas mal administradas. Hoje, até operações estruturadas encontram enorme dificuldade para sustentar endividamentos em um cenário onde financiar atividade empresarial se tornou caro demais.

Outro problema pouco discutido é a demora das empresas em reconhecer a própria crise. Muitos empresários ainda enxergam a recuperação judicial como sinônimo de fracasso, quando na verdade ela deveria funcionar como instrumento preventivo de reorganização. O resultado disso é previsível: empresas recorrem ao Judiciário apenas quando já perderam liquidez, credibilidade e capacidade operacional.

Na prática, muitas recuperações judiciais acabam sendo ajuizadas tarde demais.

A consequência dessa nova onda de recuperações vai muito além dos balanços empresariais. Cada grande empresa em crise impacta empregos, fornecedores, arrecadação, cadeias produtivas inteiras e a própria confiança do mercado. O efeito econômico se espalha rapidamente.

O Brasil criou um ambiente onde empreender passou a exigir não apenas capacidade de gestão, mas resistência extrema para sobreviver ao custo financeiro do país. Enquanto o crédito continuar inacessível e os juros permanecerem sufocando a atividade produtiva, novas recuperações judiciais continuarão surgindo em sequência.

O crescimento das recuperações judiciais não deve ser comemorado como fortalecimento do instituto. Ele deve ser interpretado como um alerta econômico. Porque quando empresas relevantes começam a cair de forma recorrente, o problema já não está apenas dentro das empresas. O problema passou a ser estrutural.

*Rafael Brasil é advogado especialista em recuperação judicial e sócio do escritório Brasil e Silveira Advogados.