MP inaugura nova fase de investigações denunciando João de Deus e guias turísticos

O Ministério Público de Goiás (MP-GO) inaugurou uma nova fase nas investigações envolvendo João Teixeira de Faria, o João de Deus. Isso aconteceu com o oferecimento, no dia 26 de dezembro de 2019, da 12ª denúncia contra o médium por crimes sexuais praticados contra duas vítimas. Dessa vez, além dele, também foram denunciados dois guias que realizavam o transporte de fiéis do Rio Grande do Sul para Abadiânia e possuíam livre trânsito na Casa Dom Inácio de Loyola.

Com essa nova fase de investigações, o MP promete apurar a existência de uma rede de proteção para o cometimento dos crimes sexuais por João de Deus. Os estupros de vulnerável, conforme o que já foi apurado, ocorreram de janeiro de 2009 a janeiro de 2011. O médium, inclusive, já foi condenado a 19 anos e 4 meses de reclusão em regime fechado por violação sexual mediante fraude contra duas mulheres e estupro de vulnerável contra outras duas, além de quatro anos de prisão, em regime aberto, por porte ilegal de armas.

O envolvimento dos guias na prática dos crimes sexuais, de acordo com os promotores de Justiça que integram a força-tarefa instituída pelo MP-GO para apurar os crimes, é decorrência da relação de confiança estabelecida com as vítimas e suas famílias, a ponto de elas confidenciarem a eles os atos sexuais a que haviam sido submetidas. Todavia, mesmo sendo conhecedores da prática contra diversas outras mulheres, os representantes do MP-GO entenderam que estes não agiram no sentido de evitar a ocorrência dos crimes contra as vítimas que fazem parte da denúncia.

Segundo os promotores de Justiça Renata Caroliny Ribeiro e Silva, Augusto César Souza e Paulo Penna Prado, mesmo após tomarem conhecimento real dos abusos sexuais que aconteceram com as vítimas durante os atendimentos individuais com João Teixeira de Faria, muito além de serem coniventes com os referidos abusos, e não adotarem qualquer providência no sentido de evitar a sua ocorrência ou amparar as mulheres vitimadas, os guias atuaram energicamente visando acobertar as práticas ilícitas e impedir que as vítimas acionassem a justiça.

No entendimento dos integrantes da força-tarefa, os guias visavam, de um lado, assegurar a impunidade do agressor sexual e principal responsável pelas atividades desenvolvidas na Casa Dom Inácio de Loyola, e a manutenção de seu status quo como guias do local, de onde auferiam renda e prestígio. Diante dessa constatação, o MP-GO detectou indícios de que João Teixeira de Faria contava com uma espécie de rede de proteção para a escolha das vítimas e a manutenção da estrutura de atendimentos realizados na Casa, a qual favorecia que as vítimas, sempre mulheres, fossem direcionadas a atendimentos individuais, permitindo a concretização dos abusos sexuais.

A rede de proteção comportava-se ativamente para que as vítimas fossem persuadidas de que a prática realizada durante os atendimentos individuais por João Teixeira de Faria não se tratava de abuso sexual, mas de uma parte do processo de cura e limpeza espiritual, o que redundava na continuidade dos abusos e de todo o esquema criminoso.

Embora os crimes sexuais praticados no ano de 2009 estejam prescritos para João Teixeira de Faria, o mesmo não ocorre com relação aos guias denunciados, cujas idades não são superiores a 70 anos. As vítimas apresentavam vulnerabilidades, como crise de pânico, as quais eram intensificadas com as ameaças espirituais, como infelicidade no casamento e divórcio.

O MP-GO detectou que, dentre as falácias que os guias denunciados proferiam às vítimas para assegurar a continuidade dos abusos, destacam-se afirmações de que as ejaculações de João Teixeira de Faria eram limpeza espiritual, de chacras, realizada por uma entidade incorporada naquele por meio de uma relação sexual com as vítimas, e que eles mesmos já teriam se submetido a essa limpeza, porém, quem realizava esse tipo de trabalho em homens seria outro funcionário da Casa Dom Inácio de Loyola.

João de Deus foi denunciado por três crimes sexuais cometidos contra duas vítimas. Já o primeiro guia é acusado por seis crimes sexuais, e o segundo, por dois crimes sexuais, ambos na condição de garantidores que se omitiram, já que assumiram a responsabilidade de impedir o resultado, devendo e podendo fazê-lo.

O MP-GO ofereceu 12 denúncias contra o médium por crimes sexuais, envolvendo 59 vítimas cujos crimes não estão prescritos e 89 prescritos. Já procuraram o MP-GO cerca de 330 mulheres – destas, 194 formalizaram denúncias contra ele. Tramitam outras duas denúncias contra ele, por porte ilegal de armas – uma em Abadiânia e outra em Anápolis –, além de uma ação civil pública, com pedido de indenização por danos morais, que já obteve o bloqueio de ativos financeiros, bens móveis e imóveis no valor de R$ 50 milhões. Com informações do MP-GO